Diagnóstico · Desenvolvimento e achados
Calcificações na panorâmica: quando o achado no pescoço pede encaminhamento
A panorâmica mostra parte dos tecidos moles do pescoço. A suspeita de ateroma calcificado de carótida aparece em cerca de 7% dos exames e é o achado que pede encaminhamento ao médico. Tonsilólito, cartilagem tritícea e ligamento estilo-hióideo calcificado costumam pedir só registro no laudo.
Base científica: meta-análises, revisão sistemática e coortes
Imagem adaptada para leitura; alterações identificadas na legenda.
DOI (identificador digital de objeto): 10.1186/s12872-019-1211-3 · Licença CC BY
O que é
A panorâmica mostra parte dos tecidos moles do pescoço, e ali aparecem calcificações sem relação com o motivo do exame. A mais importante é o ateroma calcificado na bifurcação da carótida, sinal de aterosclerose. As demais, como tonsilólito, cartilagem tritícea e ligamento estilo-hióideo calcificado, em geral pedem só registro no laudo.
Suspeita de ateroma: meta-análise com 34 estudos transversais.1 Estenose: 233 pacientes que fizeram exame da carótida depois da panorâmica.2 Risco: coorte com 238 pessoas acompanhadas em média por 9,5 anos.3
O que procurar na panorâmica
- Localização: tecidos moles abaixo e atrás do ângulo da mandíbula, na altura das vértebras C3 e C4, perto do osso hioide. A bifurcação da carótida fica nesse nível, junto de outras estruturas que também calcificam.4
- Aspecto: radiopacidade nodular, heterogênea ou em traços verticais, única ou em grupo, de um ou dos dois lados.
- Forma que mais pesa: calcificações dos dois lados que desenham a parede do vaso. Na coorte, o risco anual de eventos vasculares foi de 7,0% nesse grupo, 4,4% com outras formas e 2,6% sem calcificação.3
- Qualidade da imagem: confira se a região de C3–C4 aparece por inteiro. Posicionamento inadequado esconde ou simula o achado.
A panorâmica não mede estenose. Em meta-análise com 12 estudos e 1.002 pacientes, a sensibilidade variou de 31% a 95% e a especificidade de 19% a 99% em relação ao exame vascular de referência.5 Entre pacientes com calcificação, 15,4% tinham estenose significativa, ou seja, a maioria não tinha.2 Em revisão sistemática, a evidência sobre o valor do achado para prever eventos futuros foi considerada inconclusiva.6
Diagnóstico diferencial
- Cartilagem tritícea: nódulo pequeno, oval, liso e bem definido, mais perto da via aérea e muitas vezes simétrico. É causa frequente de falso positivo para ateroma.
- Osso hioide e corno superior da cartilagem tireoide: estruturas anatômicas na mesma altura. Reconheça o contorno antes de laudar calcificação.
- Tonsilólito: pequenas radiopacidades, isoladas ou em grupo, sobrepostas ao ramo da mandíbula na altura do palato mole ou logo abaixo. Em 2.244 panorâmicas, apareceram em 13,4% dos pacientes.7
- Sialólito submandibular: radiopacidade oval ou alongada sobre o corpo ou abaixo da base da mandíbula, na região da glândula ou do ducto. A queixa típica é dor e inchaço na hora de comer. A oclusal inferior mostra o cálculo no ducto.
- Linfonodo calcificado: massa lobulada, de aspecto em couve-flor, abaixo da mandíbula, em geral sem sintomas.
- Ligamento estilo-hióideo calcificado ou processo estiloide alongado: faixa radiopaca fina que desce por trás do ramo em direção ao hioide, quase sempre dos dois lados. Só tem relevância clínica quando há dor cervical ou dor ao engolir e ao girar a cabeça.
Conduta
- Leia o pescoço em toda panorâmica: reconhecer e encaminhar calcificações suspeitas permite avaliar cedo quem pode ter fatores de risco vascular.1
- Descreva no laudo: lado, nível vertebral, forma (nodular, linear ou contornando o vaso) e se é uni ou bilateral. Use termos de suspeita, como "imagem compatível com ateroma calcificado de carótida".
- Suspeita de ateroma: encaminhe para avaliação médica com a imagem e o laudo. A prioridade é quem não faz acompanhamento de fatores de risco cardiovascular. Quem já trata aterosclerose pode não ganhar com investigação adicional.6
- Outras calcificações: sialólito com sintomas vai para o cirurgião bucomaxilofacial. Estiloide alongado com dor cervical pede avaliação clínica. Tonsilólitos e cartilagem tritícea típicos podem apenas ser registrados. Para linfonodos calcificados, correlacione com antecedentes e encaminhe se houver dúvida, crescimento ou sinais clínicos associados.
Acompanhamento
Registre o achado e compare em panorâmicas feitas por indicação odontológica; não repita o exame apenas para monitorar calcificações vasculares. Na consulta de retorno, pergunte se o paciente levou o exame ao médico. Calcificação que cresce ou passa a aparecer dos dois lados merece novo encaminhamento.
Referências e fontes 7 fontes
- Momen M et al. Recognition of giant cell arteritis and calcified carotid artery atheromas in dental practice: systematic review and meta-analysis. Clin Oral Investig. 2026;30(5):177.Meta-análiseDOI: 10.1007/s00784-026-06865-0
- Constantine S et al. Carotid Artery Calcification on Orthopantomograms (CACO Study): is it indicative of carotid stenosis? Aust Dent J. 2019;64(1):4-10.Estudo prospectivo pareadoDOI: 10.1111/adj.12651
- Garoff M et al. Bilateral vessel-outlining carotid artery calcifications in panoramic radiographs: an independent risk marker for vascular events. BMC Cardiovasc Disord. 2019;19(1):225.Coorte prospectivaDOI: 10.1186/s12872-019-1211-3
- Barut O et al. Calcifications in the neck region of patients with carotid artery stenosis: a computed tomography angiography study of topographic anatomy. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol. 2020;129(5):523-530.Estudo anatômicoDOI: 10.1016/j.oooo.2019.09.018
- Schroder AGD et al. Diagnostic accuracy of panoramic radiography in the detection of calcified carotid artery atheroma: a meta-analysis. Clin Oral Investig. 2019;23(5):2021-2040.Meta-análiseDOI: 10.1007/s00784-019-02880-6
- Lim LZ et al. Can carotid artery calcifications on dental radiographs predict adverse vascular events? A systematic review. Clin Oral Investig. 2021;25(1):37-53.Revisão sistemáticaDOI: 10.1007/s00784-020-03696-5
- Takahashi A et al. Prevalence and imaging characteristics of palatine tonsilloliths evaluated on 2244 pairs of panoramic radiographs and CT images. Clin Oral Investig. 2017;21(1):85-91.Estudo transversalDOI: 10.1007/s00784-016-1752-0
Fonte da figura: Garoff M et al. BMC Cardiovasc Disord. 2019;19:225. doi.org/10.1186/s12872-019-1211-3