Diagnóstico · Trauma
Trauma dentoalveolar: quais radiografias pedir e como acompanhar
Cerca de 15% das pessoas já tiveram trauma na dentição permanente. A IADT (Associação Internacional de Trauma Dental) recomenda periapicais em ângulos diferentes e oclusal na urgência. A CBCT (tomografia computadorizada de feixe cônico) ajuda na fratura radicular, na fratura alveolar e na luxação lateral. O controle radiográfico ao longo dos anos detecta necrose, obliteração e reabsorção a tempo de tratar.
Base científica: diretrizes IADT 2020, meta-análises e estudo clínico comparativo
Imagem adaptada para leitura; alterações identificadas na legenda.
DOI (identificador digital de objeto): 10.1186/s12903-023-03013-y · Licença CC BY
O que é
Lesão traumática dos dentes e do osso alveolar, mais frequente em crianças e adultos jovens. Fraturas de coroa e luxações são as mais comuns na dentição permanente.2 As radiografias da urgência servem para o diagnóstico e como base para comparar nos controles.
Prevalência: meta-análise com 102 estudos na dentição permanente e 46 na decídua.1 Necrose: meta-análise de 13 estudos sobre luxação lateral.6
O que procurar na imagem
- Exames de base: a IADT recomenda uma periapical paralela, outras periapicais com angulação horizontal ou vertical diferente e a oclusal. Uma linha de fratura oblíqua pode aparecer numa incidência e sumir em outra.2
- Ligamento periodontal: espaço alargado no ápice ou na lateral da raiz sugere luxação. Na extrusão o dente sai do alvéolo e o espaço apical aumenta. Na intrusão o espaço do ligamento pode desaparecer e a junção amelocementária fica mais apical que a dos vizinhos.
- Fratura radicular: linha radiolúcida horizontal ou oblíqua que separa a raiz em dois fragmentos. Em 44 dentes com fratura horizontal, 63,6% das linhas estavam no terço médio da raiz.5
- Fratura alveolar: linha no osso que pode passar pelo ápice de mais de um dente. Clinicamente, o segmento se move em bloco.
- Desenvolvimento da raiz: ápice aberto ou fechado muda o prognóstico. Após luxação lateral, a necrose foi de 12% nos dentes imaturos e de 58% nos maduros.6
- Dente decíduo: avalie a posição do ápice deslocado em relação ao germe do permanente.4
O que a CBCT acrescenta
Para a IADT, a CBCT melhora a visualização do trauma, em especial das fraturas radiculares e das luxações laterais.2 Ela também define a extensão das fraturas alveolares e a relação da linha com os ápices. Em 44 dentes com fratura radicular horizontal, periapical e oclusal concordaram com a CBCT sobre o nível da fratura em 70,5% dos casos na face vestibular e em 31,8% na face palatina. A diferença teve relação com a inclinação da linha de fratura.5 Considere a CBCT somente se a informação adicional puder mudar o tratamento, com campo restrito à região necessária, sobretudo em crianças.
Conduta
- Na urgência: periapicais em ângulos diferentes e oclusal. Guarde as imagens como base para os controles.2
- Avulsão de dente permanente: o reimplante imediato é o melhor tratamento. Se não foi feito no local, o dente deve chegar em meio adequado, como leite, soro fisiológico ou saliva, e ser reimplantado e contido o quanto antes. Faça radiografia depois do reimplante.3
- Avulsão de dente decíduo: não reimplante.4
- Luxação lateral em dente maduro: a IADT recomenda avaliação endodôntica precoce e início do tratamento em torno de duas semanas para prevenir reabsorção inflamatória.2 A meta-análise de 2024 questiona a necessidade de tratar todos os casos, mas não substitui essa diretriz. A decisão exige avaliação especializada e acompanhamento rigoroso.6
Acompanhamento
A IADT define controles clínicos e radiográficos nas primeiras semanas e meses e depois anuais por vários anos, com calendário próprio para cada tipo de lesão.2,3 Compare cada controle com a imagem da urgência e procure:
- Necrose pulpar: lesão periapical nova e, no dente imaturo, raiz que para de crescer. Foi a complicação mais frequente em dentes maduros com luxação lateral (44,2%).7
- Obliteração do canal: canal que estreita até quase sumir. Apareceu em 8,1% dos dentes maduros com luxação lateral.7
- Reabsorção inflamatória: defeitos radiolúcidos na raiz com rarefação do osso vizinho, ligados à polpa necrosada. A prevalência foi de 11% após luxação lateral.6
- Reabsorção por substituição (anquilose): o espaço do ligamento desaparece e a raiz é trocada por osso. Foi rara após luxação lateral (0,9%).7 É a complicação típica da avulsão com o dente mantido seco por muito tempo. Em paciente em crescimento, o dente anquilosado fica em infraoclusão.
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Referências e fontes 7 fontes
- Petti S et al. World traumatic dental injury prevalence and incidence, a meta-analysis: one billion living people have had traumatic dental injuries. Dent Traumatol. 2018;34(2):71-86.Meta-análiseDOI: 10.1111/edt.12389
- Bourguignon C et al. International Association of Dental Traumatology guidelines for the management of traumatic dental injuries: 1. Fractures and luxations. Dent Traumatol. 2020;36(4):314-330.Diretriz IADTDOI: 10.1111/edt.12578
- Fouad AF et al. International Association of Dental Traumatology guidelines for the management of traumatic dental injuries: 2. Avulsion of permanent teeth. Dent Traumatol. 2020;36(4):331-342.Diretriz IADTDOI: 10.1111/edt.12573
- Day PF et al. International Association of Dental Traumatology guidelines for the management of traumatic dental injuries: 3. Injuries in the primary dentition. Dent Traumatol. 2020;36(4):343-359.Diretriz IADTDOI: 10.1111/edt.12576
- Bornstein MM et al. Comparison of intraoral radiography and limited cone beam computed tomography for the assessment of root-fractured permanent teeth. Dent Traumatol. 2009;25(6):571-577.Estudo clínico comparativoDOI: 10.1111/j.1600-9657.2009.00833.x
- Tewari N et al. Risk of pulp necrosis and related complications in the permanent anterior teeth with lateral luxation: a systematic review and meta-analysis. Dent Traumatol. 2024;40(5):482-498.Meta-análiseDOI: 10.1111/edt.12956
- Clark D, Levin L. Prognosis and complications of mature teeth after lateral luxation: a systematic review. J Am Dent Assoc. 2019;150(8):649-655.Revisão sistemáticaDOI: 10.1016/j.adaj.2019.03.001
Fonte da figura: Van Gorp G et al. BMC Oral Health. 2023;23:270. doi.org/10.1186/s12903-023-03013-y