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Diagnóstico · Lesões císticas

Cisto dentígero: quando o espaço em volta da coroa deixa de ser folículo

É o segundo cisto odontogênico mais frequente, atrás do radicular, e envolve a coroa de um dente incluso. A panorâmica levanta a suspeita. A CBCT (tomografia computadorizada de feixe cônico) mostra a relação com canal mandibular, seio e dentes vizinhos. Só o histopatológico separa o cisto do folículo aumentado, do queratocisto e do ameloblastoma unicístico.

Lesões císticasPanorâmica · complementar: CBCT4 min de leitura

Base científica: classificação OMS (Organização Mundial da Saúde) 2022, revisões sistemáticas e coortes

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Imagem adaptada para leitura; alterações identificadas na legenda.

Três lesões que se confundem na panorâmica. (A) Ameloblastoma com radiolucidez multilocular. (B) Queratocisto odontogênico e (C) cisto dentígero, ambos uniloculares. Nestes exemplos, nos cortes axiais de CBCT, (D) o ameloblastoma perfura a cortical lingual, e (E) o queratocisto e (F) o cisto dentígero mantêm as corticais íntegras. Esses padrões se sobrepõem e não substituem a confirmação histopatológica.Zeen El-Abdeen HM et al. BMC Oral Health. 2025;25:1720 · Fig. 1 · CC BY (Creative Commons Atribuição) 4.0 · versão adaptada: contraste leve e nitidez; dimensões, letras e setas preservadas
DOI (identificador digital de objeto): 10.1186/s12903-025-07065-0 · Licença CC BY

O que é

Cisto odontogênico de desenvolvimento que envolve a coroa de um dente não irrompido e se insere na junção amelocementária. Costuma ser achado de exame, sem sintomas, e aparece mais em terceiros molares inferiores e caninos superiores. Numa série japonesa de 19.352 cistos reclassificados pela OMS 2022, o dentígero ficou em segundo lugar, atrás do radicular.2

23,4%dos cistos não neoplásicos dos maxilares eram dentígeros
≥ 2,5 mmde espaço pericoronário se associou a cisto no histopatológico
62%dos pré-molares com cisto irromperam sozinhos após descompressão

Frequência: série italiana com 2.150 cistos.3 Espaço pericoronário: coorte prospectiva com 250 pacientes selecionados para extração de terceiros molares inclusos.4 Erupção: meta-análise de estudos com pré-molares.7

O que procurar na panorâmica

  • Forma: radiolucidez unilocular, bem delimitada e corticalizada, em volta da coroa de dente incluso, presa na junção amelocementária.
  • Largura do espaço pericoronário: a partir de 2,5 mm, o risco de cisto no histopatológico foi 1,79 vez maior. Posição vertical, horizontal ou distoangular do terceiro molar e idade na terceira década também se associaram ao cisto.4
  • Efeito nas estruturas vizinhas: deslocamento do dente incluso, expansão de cortical, deslocamento do canal mandibular ou do assoalho do seio e reabsorção de raízes adjacentes.
  • Sinais que pedem outra hipótese: aspecto multilocular, crescimento ao longo do corpo da mandíbula com pouca expansão, reabsorção radicular extensa ou inserção fora da junção amelocementária.

Diagnóstico diferencial

Folículo hiperplásico, queratocisto odontogênico e ameloblastoma unicístico podem ter o mesmo aspecto pericoronário. A 5ª edição da classificação da OMS (2022) passou a listar critérios diagnósticos essenciais para cada entidade, reunindo achados clínicos, microscópicos e radiográficos.1 Na coorte de 250 terceiros molares, 44,4% dos espécimes eram folículo e 55,6% cisto, e os autores ressaltam que a radiografia isolada é pouco confiável para essa separação.4 A distinção muda a conduta, porque queratocisto e ameloblastoma recidivam mais. Essas proporções vêm de pacientes operados e não representam todos os dentes inclusos. O limiar de 2,5 mm é um sinal de suspeita, não um diagnóstico nem uma indicação isolada de cirurgia. Envie o tecido pericoronário removido para avaliação histopatológica.

O que a CBCT acrescenta

A CBCT de FOV (campo de visão) reduzido entra quando a lesão se aproxima do canal mandibular, do seio maxilar ou das raízes vizinhas, ou quando a panorâmica sugere outra lesão. Ela mostra expansão e perfuração de cortical, reabsorção radicular e o volume do cisto, dados que pesam na escolha entre enucleação e descompressão. Em 40 cistos mandibulares descomprimidos, o volume medido na CBCT caiu de 3.764 mm³ para 1.413 mm³ até a enucleação, em média 5,2% ao mês, sem diferença significativa entre os tipos de cisto.6

Conduta

  1. Espaço pequeno, sem expansão nem sintomas: correlacione com a clínica e com imagens anteriores. Defina acompanhamento e necessidade de nova radiografia individualmente; medida abaixo de 2,5 mm não exclui alterações histológicas. Se o dente for extraído, envie o tecido mole para o histopatológico.4
  2. Espaço de 2,5 mm ou mais, assimetria ou crescimento entre exames: investigue a suspeita com avaliação clínica e do cirurgião. A decisão de operar depende do conjunto dos achados. Considere CBCT se a informação tridimensional puder mudar a conduta, com campo que cubra toda a lesão e as estruturas em risco.
  3. Cisto confirmado ou fortemente suspeito: o cirurgião define enucleação, descompressão e possibilidade de preservar o dente, conforme tamanho, localização e prognóstico. O tecido removido requer exame histopatológico.
  4. Cisto grande, risco ao nervo ou à integridade da mandíbula: descompressão ou marsupialização como primeira etapa. Na revisão sistemática com 1.088 lesões, essas técnicas foram usadas sobretudo como tratamento preliminar, seguido de enucleação, com duração em geral de 1 a 2 anos.5
  5. Criança com dente permanente que se quer manter: após descompressão ou marsupialização, cerca de 62% dos pré-molares irromperam sem tração. Idade baixa (média de 10 anos) e raiz com até metade da formação favoreceram a erupção. Os estudos são poucos e com alto risco de viés.7

Acompanhamento

Depois da enucleação, faça controle com panorâmica até a neoformação óssea. Reserve a CBCT de controle para lesões junto a estruturas nobres ou quando a panorâmica não esclarece. Na descompressão, os controles de imagem definem o momento da segunda cirurgia.6 Como o cisto quase sempre é achado de exame, a panorâmica, quando indicada pela avaliação clínica de pacientes com dentes inclusos, permite detectá-lo cedo.

Referências e fontes 7 fontes
  1. Vered M, Wright JM. Update from the 5th Edition of the World Health Organization Classification of Head and Neck Tumors: Odontogenic and Maxillofacial Bone Tumours. Head Neck Pathol. 2022;16(1):63-75.Revisão da classificação OMS 2022DOI: 10.1007/s12105-021-01404-7
  2. Kokubun K et al. Epidemiologic and clinicopathologic features of 19,352 jaw cysts: a single-center retrospective study. BMC Oral Health. 2026;26(1).Série retrospectivaDOI: 10.1186/s12903-026-07776-y
  3. Aquilanti L et al. Non-neoplastic jaw cysts: a 30-year epidemiological study of 2150 cases in the Italian population. Br J Oral Maxillofac Surg. 2021;59(2):168-173.Série retrospectivaDOI: 10.1016/j.bjoms.2020.08.011
  4. Telcioğlu NT et al. Differentiation between dental follicle and dentigerous cyst in impacted mandibular third molars: a prospective cohort study. J Oral Maxillofac Surg. 2026;84(9):1487-1494.Coorte prospectivaDOI: 10.1016/j.joms.2026.04.008
  5. Berretta LM et al. Effectiveness of marsupialisation and decompression on the reduction of cystic jaw lesions: a systematic review. Br J Oral Maxillofac Surg. 2021;59(10):e17-e42.Revisão sistemáticaDOI: 10.1016/j.bjoms.2021.03.004
  6. Raabe C et al. Three-dimensional changes in mandibular jaw cysts following decompression surgery: a retrospective cohort study. BMC Oral Health. 2026;26(1):343.Coorte retrospectiva em CBCTDOI: 10.1186/s12903-026-07729-5
  7. Nahajowski M et al. Factors influencing an eruption of teeth associated with a dentigerous cyst: a systematic review and meta-analysis. BMC Oral Health. 2021;21(1):180.Revisão sistemática e meta-análiseDOI: 10.1186/s12903-021-01542-y

Fonte da figura: Zeen El-Abdeen HM et al. BMC Oral Health. 2025;25:1720. doi.org/10.1186/s12903-025-07065-0

Figura científica