Diagnóstico · Endodontia
Fratura radicular vertical: sinais na imagem e limites da CBCT (tomografia computadorizada de feixe cônico)
A fratura radicular vertical aparece principalmente em dentes tratados endodonticamente e costuma ser descoberta tarde. A periapical raramente mostra a linha de fratura. A CBCT ajuda a ver o padrão de perda óssea ao redor da raiz, e a confirmação muitas vezes depende da visualização direta.
Base científica: consenso europeu e meta-análises
Imagem adaptada para leitura; alterações identificadas na legenda.
DOI (identificador digital de objeto): 10.1186/s12903-022-02422-9 · Licença CC BY
O que é
É uma fratura longitudinal incompleta da raiz que envolve cemento, dentina e canal. Ela se forma por fadiga ao longo do tempo e é mais comum em dentes tratados endodonticamente, em pré-molares superiores e em molares inferiores. O prognóstico é ruim.1
Sinais clínicos: meta-análise com 2.877 dentes tratados endodonticamente.2 Halo: 51 pré-molares superiores com fratura comparados a 51 sem fratura.3 Sensibilidade: meta-análise de estudos diagnósticos.4
O que procurar na imagem
- Halo ou J: radiolucidez que contorna o ápice e sobe por uma ou pelas duas faces da raiz. Nos pré-molares superiores fraturados, o halo foi o achado mais comum. Perda óssea angular e radiolucidez periodontal apareceram em 14% dos casos cada.3
- Perda óssea vertical isolada: defeito estreito junto a uma raiz, com osso preservado nos dentes vizinhos.
- Fase inicial: muitas vezes não há alteração. Podem aparecer perda sutil da crista, espessamento do ligamento ao longo da parede lateral ou linha radiolúcida no canal.1
- Fase avançada: separação dos fragmentos da raiz.1
- Clínica que acompanha: na meta-análise, bolsa aumentada (OR (razão de chances) 13,24), fístula (OR 4,87), edema ou abscesso (OR 2,86) e dor à percussão (OR 1,76) se associaram à fratura.2 A bolsa típica é estreita, profunda e isolada. Encontrada nos dois lados da raiz, ela é patognomônica.1
O que a CBCT acrescenta
A fratura costuma ser mais fina que a resolução da CBCT. A guta-percha e os pinos metálicos geram endurecimento do feixe e dispersão, que podem esconder a fratura ou simular uma.1,5 Em dentes obturados, a meta-análise encontrou sensibilidade de 75% e especificidade de 65% para a CBCT, contra 24% e 96% para a periapical. Em dentes sem obturação, a especificidade da CBCT foi de 95%.4 Em estudo clínico com conferência no dente extraído, a sensibilidade foi de 16% na periapical digital e de 27% na CBCT.6
A CBCT é mais útil para mostrar o padrão de perda óssea junto à raiz que acompanha a fratura.5 Voxel e FOV (campo de visão) menores parecem melhorar a detecção. Em estudos clínicos, voxels de 0,08 a 0,1 mm tiveram sensibilidade de 84% e especificidade de 79%, contra 70% e 55% com 0,125 a 0,2 mm.7
Conduta
- Dente tratado com bolsa estreita isolada, fístula ou lesão em halo: suspeite de fratura. Faça periapicais em angulações diferentes. Rastreie a fístula com cone de guta-percha para achar a origem.5
- Ainda sem certeza: remova restaurações, examine com magnificação e, se preciso, faça cirurgia exploradora para ver a raiz diretamente.1
- Fratura confirmada em dente unirradicular: a extração costuma ser indicada. Planeje a intervenção em tempo oportuno para limitar sintomas e perda óssea, discutindo as opções de reabilitação.1
Prevenção
Na meta-análise, pinos, coroas, tipo e posição do dente e extensão da obturação não se associaram de forma significativa à fratura.2 As medidas preventivas vêm de consenso de especialistas e de estudos laboratoriais. Preserve a dentina pericervical no acesso e na instrumentação. Restaure o acesso com resina logo após a obturação e faça cobertura de cúspides quando indicada. Use pino só quando faltar estrutura coronária, cimentado de forma passiva e sem preparo excessivo do conduto. Controle sobrecarga oclusal e parafunção.1,5
Referências e fontes 7 fontes
- Patel S et al. Position statement on longitudinal cracks and fractures of teeth. Int Endod J. 2025;58(3):379-390.Consenso (ESE — Sociedade Europeia de Endodontologia)DOI: 10.1111/iej.14186
- Haupt F et al. Risk Factors for and Clinical Presentations Indicative of Vertical Root Fracture in Endodontically Treated Teeth: A Systematic Review and Meta-analysis. J Endod. 2023;49(8):940-952.Revisão sistemática e meta-análiseDOI: 10.1016/j.joen.2023.06.004
- Tamse A et al. Radiographic features of vertically fractured, endodontically treated maxillary premolars. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol Endod. 1999;88(3):348-352.Estudo caso-controleDOI: 10.1016/s1079-2104(99)70041-7
- Talwar S et al. Role of Cone-beam Computed Tomography in Diagnosis of Vertical Root Fractures: A Systematic Review and Meta-analysis. J Endod. 2016;42(1):12-24.Revisão sistemática e meta-análiseDOI: 10.1016/j.joen.2015.09.012
- Patel S, Bhuva B, Bose R. Present status and future directions: vertical root fractures in root filled teeth. Int Endod J. 2022;55 Suppl 3:804-826.Revisão narrativaDOI: 10.1111/iej.13737
- Chavda R et al. Comparing the in vivo diagnostic accuracy of digital periapical radiography with cone-beam computed tomography for the detection of vertical root fracture. J Endod. 2014;40(10):1524-1529.Estudo diagnóstico in vivoDOI: 10.1016/j.joen.2014.05.011
- de Lima KL et al. Influence of the technical parameters of CBCT image acquisition on vertical root fracture diagnosis: a systematic review and meta-analysis. Clin Oral Investig. 2023;27(2):433-474.Revisão sistemática e meta-análiseDOI: 10.1007/s00784-022-04797-z
Fonte da figura: Hu Z et al. BMC Oral Health. 2022;22:382. doi.org/10.1186/s12903-022-02422-9