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Prática · Proteção radiológica

Dose de radiação: quanto cada exame odontológico expõe o paciente

Periapical, interproximal, panorâmica e telerradiografia ficam na faixa de poucos microsieverts. A CBCT (tomografia computadorizada de feixe cônico) vai de dezenas a centenas e depende muito do aparelho e do campo de visão. A dose cai com indicação bem feita e protocolo ajustado. As recomendações internacionais sobre blindagem devem ser interpretadas junto às normas sanitárias brasileiras.

Proteção radiológicaTodos os exames4 min de leitura

Base científica: meta-análise, estudos dosimétricos e diretrizes ADA (Associação Americana de Odontologia)/AAOMR (Academia Americana de Radiologia Oral e Maxilofacial)

Ler a explicação para o paciente
Exemplos publicados de dose efetiva, em microsievert, em escala logarítmica. Valores de estudos e populações diferentes; não estimam a dose de um paciente individual. (A) Exames 2D: na panorâmica, os dois valores são de dois aparelhos digitais avaliados no mesmo estudo. (B) CBCT em adultos, por tamanho do campo de visão (FOV): o ponto mostra a média dos protocolos padrão e a linha mostra a faixa publicada entre aparelhos e protocolos. Os dois pontos da panorâmica correspondem a aparelhos distintos.Gráfico da COR com dados de Ludlow et al. 2008, Ludlow et al. 2015 e Kadesjö et al. 2018 (refs. 1 a 3)

O que é

Dose efetiva é a soma das doses recebidas por cada órgão, ponderada pela sensibilidade de cada um à radiação. É a medida usada para comparar exames diferentes. Com os fatores de ponderação da ICRP (Comissão Internacional de Proteção Radiológica) de 2007, as doses dos exames odontológicos ficaram de 32% a 422% acima das calculadas pelas regras de 1990.1

5 µSvquatro interproximais posteriores com colimação retangular
14 a 24 µSvpanorâmica digital, nos dois aparelhos avaliados
84 a 212 µSvmédia da CBCT em adultos, do FOV pequeno ao grande

Interproximal e panorâmica: estudo dosimétrico em simulador de cabeça com os fatores da ICRP 2007.1 CBCT: meta-análise de 20 estudos com dados adicionais de nove aparelhos.2

Doses típicas por exame

  • Periapical: 0,6 a 0,7 µSv por incidência de incisivo superior em simulador de criança de 10 anos, com sensor digital.3 O levantamento periapical completo de adulto ficou em 34,9 µSv com colimação retangular e em 170,7 µSv com colimação circular.1
  • Interproximal: 5,0 µSv para quatro incidências posteriores com colimação retangular.1
  • Panorâmica: 14,2 e 24,3 µSv nos dois aparelhos digitais avaliados em adulto,1 e 4,1 µSv no simulador infantil.3
  • Telerradiografia: 5,6 µSv na lateral e 5,1 µSv na posteroanterior.1
  • CBCT: médias em adultos de 84 µSv com FOV pequeno, 177 µSv com FOV médio e 212 µSv com FOV grande. Em crianças, 103 µSv com FOV pequeno e 175 µSv com FOV médio ou grande.2

Como comparação, a radiação natural média no mundo é de cerca de 2,4 mSv (2.400 µSv) por ano. Essa equivalência é apenas uma comparação de dose efetiva: não expressa equivalência exata de risco individual e não substitui a justificação do exame. Numa coorte de 7.150 crianças e jovens, a maior dose de CBCT equivaleu a 34,1 dias de radiação natural.4

O que muda a dose da CBCT

A dose varia muito entre aparelhos e protocolos. Na meta-análise, a dose em adultos foi de 5 a 652 µSv com FOV pequeno, de 9 a 560 µSv com FOV médio e de 46 a 1.073 µSv com FOV grande. Os protocolos de baixa dose e de alta definição que muitos aparelhos oferecem ampliam essa faixa.2 Em simulador infantil, dois tomógrafos deram 88 e 170 µSv para avaliar canino incluso, de 15 a 140 vezes a dose do exame 2D usado para a mesma pergunta.3

Conduta

  1. Justificação: peça o exame quando ele pode mudar o diagnóstico ou o tratamento. A decisão parte da história médica e odontológica, do exame clínico e do risco de doença. Reveja as imagens que o paciente já tem antes de pedir novas.7
  2. CBCT só quando a 2D não responde: a recomendação da ADA e da AAOMR é usar todas as modalidades com critério, em especial a CBCT, para limitar a dose acumulada.7
  3. Otimização: ALARA (tão baixo quanto razoavelmente possível) pede a menor dose razoavelmente possível. ALADA (tão baixo quanto aceitável para o diagnóstico) pede a menor dose que ainda permite o diagnóstico. ALADAIP (tão baixo quanto aceitável para o diagnóstico, orientado pela indicação e específico para o paciente) acrescenta que o protocolo deve ser orientado pela indicação e específico para cada paciente.5 Na CBCT, isso significa FOV restrito à região de interesse, resolução suficiente para a pergunta e protocolo pediátrico quando o aparelho tiver.
  4. Intraorais: use sensor digital ou placa de fósforo e colimação retangular. A troca do colimador circular pelo retangular reduziu a dose do levantamento periapical completo de 170,7 para 34,9 µSv.1
  5. Avental e protetor de tireoide: a AAOMR recomenda suspender a proteção de gônadas, pelve e feto em todos os exames odontológicos, porque a dose nesses órgãos é desprezível. Também recomenda não usar protetor de tireoide em intraoral, panorâmica, telerradiografia e CBCT, porque o risco de câncer de tireoide com as doses atuais é desprezível. A própria academia orienta procurar as autoridades para atualizar as normas locais.6 No Brasil, a RDC (Resolução da Diretoria Colegiada) Anvisa 611/2022, art. 61, estabelece blindagem nas condições ali descritas; a RDC 1.002/2025, art. 144, exige disponibilidade de vestimenta plumbífera para cada equipamento intraoral. Cumpra as normas aplicáveis e as orientações da vigilância sanitária local.8,9

Prevenção

Crianças são mais sensíveis à radiação e têm mais anos de vida pela frente para expressar efeitos tardios. Na coorte pediátrica, a dose mediana das radiografias convencionais ficou abaixo de 20 µSv. As crianças que fizeram CBCT tiveram mediana de 127,2 µSv, e a CBCT respondeu por 70% da dose coletiva do grupo.4 Por isso, em crianças e adolescentes, a escolha do protocolo pela indicação e pelo paciente pesa ainda mais.5 Registre os exames feitos e peça as imagens anteriores para evitar repetição.

Referências e fontes 9 fontes
  1. Ludlow JB et al. Patient risk related to common dental radiographic examinations: the impact of 2007 International Commission on Radiological Protection recommendations regarding dose calculation. J Am Dent Assoc. 2008;139(9):1237-43.Estudo dosimétricoDOI (identificador digital de objeto): 10.14219/jada.archive.2008.0339
  2. Ludlow JB et al. Effective dose of dental CBCT: a meta analysis of published data and additional data for nine CBCT units. Dentomaxillofac Radiol. 2015;44(1):20140197.Meta-análiseDOI: 10.1259/dmfr.20140197
  3. Kadesjö N et al. Radiation dose from X-ray examinations of impacted canines: cone beam CT vs two-dimensional imaging. Dentomaxillofac Radiol. 2018;47(3):20170305.Estudo dosimétricoDOI: 10.1259/dmfr.20170305
  4. Hedesiu M et al. Irradiation provided by dental radiological procedures in a pediatric population. Eur J Radiol. 2018;103:112-117.Coorte retrospectivaDOI: 10.1016/j.ejrad.2018.04.021
  5. Oenning AC et al. Cone-beam CT in paediatric dentistry: DIMITRA project position statement. Pediatr Radiol. 2018;48(3):308-316.Consenso (DIMITRA)DOI: 10.1007/s00247-017-4012-9
  6. Benavides E et al. Patient shielding during dentomaxillofacial radiography: recommendations from the American Academy of Oral and Maxillofacial Radiology. J Am Dent Assoc. 2023;154(9):826-835.e2.Diretriz AAOMRDOI: 10.1016/j.adaj.2023.06.015
  7. Benavides E et al. American Dental Association and American Academy of Oral and Maxillofacial Radiology patient selection for dental radiography and cone-beam computed tomography: clinical recommendations. J Am Dent Assoc. 2026;157(1):20-35.e5.Diretriz ADA/AAOMRDOI: 10.1016/j.adaj.2025.10.013
  8. Anvisa. RDC 611/2022, art. 61. Organização e funcionamento de serviços de radiologia diagnóstica.Norma sanitária brasileira
  9. Anvisa. RDC 1.002/2025, art. 144. Boas práticas dos serviços de assistência odontológica.Norma sanitária brasileira

Fonte da figura: Ludlow JB et al. J Am Dent Assoc. 2008;139(9):1237-43. doi.org/10.14219/jada.archive.2008.0339 · Ludlow JB et al. Dentomaxillofac Radiol. 2015;44(1):20140197. doi.org/10.1259/dmfr.20140197 · Kadesjö N et al. Dentomaxillofac Radiol. 2018;47(3):20170305. doi.org/10.1259/dmfr.20170305

Figura científica