COR·BibliotecaRADIOLOGIA ODONTOLÓGICA
Site CORCatálogo
‹ Voltar ao catálogo

Diagnóstico · Tumores e lesões fibro-ósseas

Displasia cemento-óssea: lesão no ápice de dente vital que não é endodôntica

Lesão fibro-óssea benigna e não neoplásica, mais comum em mulheres de meia-idade. Na fase radiolúcida ela imita lesão periapical. Teste de vitalidade, periapical e panorâmica bastam para reconhecê-la e evitar tratamento de canal, biópsia e extração desnecessários, que podem levar à osteomielite.

Lesões fibro-ósseasPeriapical e panorâmica4 min de leitura

Base científica: revisão sistemática, coortes e séries de casos

Ler a explicação para o paciente

Imagem adaptada para leitura; alterações identificadas na legenda.

Displasia óssea florida em fase inicial (radiolúcida). (a) Na panorâmica, várias radiolucências periapicais (setas brancas) em dentes com vitalidade pulpar, imitando lesões endodônticas. Cortes de CBCT (tomografia computadorizada de feixe cônico) dos dentes (b) 13, (c) 43, (d) 33 e (e, f) 34 detalham as lesões. Teste de vitalidade antes de indicar tratamento de canal evita intervenção desnecessária.Daviet-Noual V et al. BMC Oral Health. 2017;17:161 · Fig. 1 · CC BY (Creative Commons Atribuição) 4.0 · versão adaptada: contraste leve e nitidez; dimensões, letras e setas preservadas
DOI (identificador digital de objeto): 10.1186/s12903-017-0455-5 · Licença CC BY

O que é

Lesão fibro-óssea benigna e não neoplásica da região dos dentes, em que tecido fibroso, osso e material semelhante a cemento substituem o osso normal ao redor dos ápices. Tem três formas: periapical (incisivos inferiores), focal (um único sítio) e florida (vários quadrantes). Os dentes envolvidos são vitais e a lesão costuma ser achado de exame.

48,8%das lesões fibro-ósseas numa série de 383 casos eram displasia cemento-óssea
98,2%dos casos numa série de 55 pacientes foram mal diagnosticados ou passaram despercebidos na clínica
18,1%das lesões aumentaram de diâmetro em cerca de 28 meses de controle

Frequência: série brasileira de 383 lesões fibro-ósseas.1 Discordância antes da avaliação radiológica: série chinesa de 55 casos selecionados; não é uma estimativa do erro em toda a prática odontológica.3 Evolução: 83 lesões acompanhadas por CBCT.7

Predomina em mulheres de meia-idade. Numa coorte multicêntrica sul-africana de 124 pacientes, 90,4% eram mulheres, a idade média foi de 48,5 anos e 95,9% tinham ascendência africana.2 Na série brasileira, 71,6% das displasias ocorreram em afrodescendentes.1 Na série chinesa, 48 dos 55 pacientes eram mulheres.3 A proporção de cada grupo depende da população atendida em cada serviço.

O que procurar na imagem

  • Localização: ápices de dentes vitais, quase sempre na mandíbula. A forma periapical fica nos incisivos inferiores. A florida costuma ser bilateral e posterior.
  • Fase: a lesão começa radiolúcida, passa a mista e termina radiopaca. Quanto mais madura, mais radiopaca.
  • Halo radiolúcido: nas fases mista e radiopaca, uma faixa radiolúcida separa a massa do osso normal.
  • Dente sem causa de necrose: ausência de cárie, restauração profunda ou trauma que explique uma lesão endodôntica.
  • Limites: lesão confinada ao processo alveolar e sem expansão importante. Expansão, cápsula ou fusão com a raiz sugerem outro diagnóstico.

Diagnóstico diferencial

Na fase radiolúcida, a displasia imita a periodontite apical. Entre 6.704 biópsias enviadas como lesão endodôntica, 190 tinham outro diagnóstico, e a displasia cemento-óssea foi a segunda mais frequente entre elas (14,2%).4 Na série chinesa, os erros mais comuns foram doença dentária, cisto ou tumor e osteomielite, e parte dos pacientes recebeu tratamento de canal, extração ou curetagem.3 Teste de vitalidade positivo em dente sem causa de necrose aponta para displasia. O diferencial inclui também o fibroma cemento-ossificante, que é expansivo e bem delimitado, e o cementoblastoma, que se funde à raiz.

O osso displásico é pouco vascularizado e infecta com facilidade. Em 66 casos de displasia infectada, a extração dentária foi o principal fator associado à infecção, e a forma florida respondeu por 62,1% dos casos.5 A osteomielite secundária foi mais frequente na displasia cemento-óssea do que na displasia fibrosa e no fibroma ossificante.1

Conduta

  1. Lesão periapical em dente sem causa evidente: faça teste de vitalidade antes de qualquer tratamento endodôntico. Não indique tratamento endodôntico apenas pela radiolucidez; integre os testes de sensibilidade e os demais achados clínicos.
  2. Aspecto típico na periapical e na panorâmica: o diagnóstico é por imagem. A OMS (Organização Mundial da Saúde) recomenda evitar a biópsia sempre que possível, e ela fica para os casos com achados inconclusivos.2,3
  3. Lesão sem sintomas: acompanhe com radiografias e mantenha o controle de cárie e doença periodontal. Na revisão sistemática, 10 dos 11 estudos contraindicaram tratar a forma florida assintomática, e profilaxia com monitoramento foi a conduta mais recomendada.6 Na coorte de 124 pacientes, 72% das lesões achadas por acaso foram apenas observadas.2
  4. Dúvida na fase radiolúcida ou suspeita de expansão: peça CBCT de FOV (campo de visão) reduzido.
  5. Dor, drenagem ou osso exposto: encaminhe ao cirurgião bucomaxilofacial. Na coorte citada, a curetagem ou excisão do osso infectado foi usada no tratamento. A indicação depende da extensão, dos sintomas e da avaliação especializada; a comparação retrospectiva não estabelece superioridade universal.2
  6. Extração ou cirurgia na área: evite quando houver alternativa. Se for inevitável, informe o paciente sobre o risco de infecção e planeje com o cirurgião.5

Acompanhamento

A evolução natural é lenta. Em 83 lesões acompanhadas por CBCT por 28,3 meses em média, 18,1% aumentaram de diâmetro e 14,5% mudaram de aspecto. O tempo mediano até o aumento foi de 120 meses na forma periapical e de 66 meses na florida.7 Na maioria dos casos, periapical ou panorâmica periódicas bastam. Registre o diagnóstico no prontuário para que outros profissionais não tratem a lesão como endodôntica.

Referências e fontes 7 fontes
  1. Kato CNAO et al. Retrospective study of 383 cases of fibro-osseous lesions of the jaws. J Oral Maxillofac Surg. 2018;76(11):2348-2359.Série retrospectivaDOI: 10.1016/j.joms.2018.04.037
  2. Titinchi F et al. Cemento-osseous dysplasia: a multi-centre analysis of surgical management. Oral Maxillofac Surg. 2025;29(1):96.Coorte multicêntrica retrospectivaDOI: 10.1007/s10006-025-01394-8
  3. Li Y et al. Why was the concordance rate of imaging and clinical diagnosis in cemento-osseous dysplasia low? A retrospective study of 55 cases. BMC Oral Health. 2026;26(1):537.Série retrospectivaDOI: 10.1186/s12903-026-07937-z
  4. Rudman J et al. Prevalence of nonendodontic diagnoses in periapical biopsies: a 6-year institutional experience. J Endod. 2022;48(10):1257-1262.Estudo retrospectivo de biópsiasDOI: 10.1016/j.joen.2022.07.003
  5. Kato CNAO et al. Infected cemento-osseous dysplasia: analysis of 66 cases and literature review. Head Neck Pathol. 2020;14(1):173-182.Série de casos e revisão de literaturaDOI: 10.1007/s12105-019-01037-x
  6. Gabay M et al. Treatment indications for symptomatic versus asymptomatic florid cemento-osseous dysplasia in adult patients: a systematic review. Oral Surg Oral Med Oral Pathol Oral Radiol. 2024;138(6):686-701.Revisão sistemáticaDOI: 10.1016/j.oooo.2024.06.011
  7. Nemec SF et al. Radiological follow-up of cemento-osseous dysplasia on cone-beam computed tomography. J Craniomaxillofac Surg. 2024;52(5):644-651.Coorte retrospectiva em CBCTDOI: 10.1016/j.jcms.2024.03.008

Fonte da figura: Daviet-Noual V et al. BMC Oral Health. 2017;17:161. doi.org/10.1186/s12903-017-0455-5

Figura científica