Diagnóstico · Tumores e lesões fibro-ósseas
Displasia cemento-óssea: lesão no ápice de dente vital que não é endodôntica
Lesão fibro-óssea benigna e não neoplásica, mais comum em mulheres de meia-idade. Na fase radiolúcida ela imita lesão periapical. Teste de vitalidade, periapical e panorâmica bastam para reconhecê-la e evitar tratamento de canal, biópsia e extração desnecessários, que podem levar à osteomielite.
Base científica: revisão sistemática, coortes e séries de casos
Imagem adaptada para leitura; alterações identificadas na legenda.
DOI (identificador digital de objeto): 10.1186/s12903-017-0455-5 · Licença CC BY
O que é
Lesão fibro-óssea benigna e não neoplásica da região dos dentes, em que tecido fibroso, osso e material semelhante a cemento substituem o osso normal ao redor dos ápices. Tem três formas: periapical (incisivos inferiores), focal (um único sítio) e florida (vários quadrantes). Os dentes envolvidos são vitais e a lesão costuma ser achado de exame.
Frequência: série brasileira de 383 lesões fibro-ósseas.1 Discordância antes da avaliação radiológica: série chinesa de 55 casos selecionados; não é uma estimativa do erro em toda a prática odontológica.3 Evolução: 83 lesões acompanhadas por CBCT.7
Predomina em mulheres de meia-idade. Numa coorte multicêntrica sul-africana de 124 pacientes, 90,4% eram mulheres, a idade média foi de 48,5 anos e 95,9% tinham ascendência africana.2 Na série brasileira, 71,6% das displasias ocorreram em afrodescendentes.1 Na série chinesa, 48 dos 55 pacientes eram mulheres.3 A proporção de cada grupo depende da população atendida em cada serviço.
O que procurar na imagem
- Localização: ápices de dentes vitais, quase sempre na mandíbula. A forma periapical fica nos incisivos inferiores. A florida costuma ser bilateral e posterior.
- Fase: a lesão começa radiolúcida, passa a mista e termina radiopaca. Quanto mais madura, mais radiopaca.
- Halo radiolúcido: nas fases mista e radiopaca, uma faixa radiolúcida separa a massa do osso normal.
- Dente sem causa de necrose: ausência de cárie, restauração profunda ou trauma que explique uma lesão endodôntica.
- Limites: lesão confinada ao processo alveolar e sem expansão importante. Expansão, cápsula ou fusão com a raiz sugerem outro diagnóstico.
Diagnóstico diferencial
Na fase radiolúcida, a displasia imita a periodontite apical. Entre 6.704 biópsias enviadas como lesão endodôntica, 190 tinham outro diagnóstico, e a displasia cemento-óssea foi a segunda mais frequente entre elas (14,2%).4 Na série chinesa, os erros mais comuns foram doença dentária, cisto ou tumor e osteomielite, e parte dos pacientes recebeu tratamento de canal, extração ou curetagem.3 Teste de vitalidade positivo em dente sem causa de necrose aponta para displasia. O diferencial inclui também o fibroma cemento-ossificante, que é expansivo e bem delimitado, e o cementoblastoma, que se funde à raiz.
O osso displásico é pouco vascularizado e infecta com facilidade. Em 66 casos de displasia infectada, a extração dentária foi o principal fator associado à infecção, e a forma florida respondeu por 62,1% dos casos.5 A osteomielite secundária foi mais frequente na displasia cemento-óssea do que na displasia fibrosa e no fibroma ossificante.1
Conduta
- Lesão periapical em dente sem causa evidente: faça teste de vitalidade antes de qualquer tratamento endodôntico. Não indique tratamento endodôntico apenas pela radiolucidez; integre os testes de sensibilidade e os demais achados clínicos.
- Lesão sem sintomas: acompanhe com radiografias e mantenha o controle de cárie e doença periodontal. Na revisão sistemática, 10 dos 11 estudos contraindicaram tratar a forma florida assintomática, e profilaxia com monitoramento foi a conduta mais recomendada.6 Na coorte de 124 pacientes, 72% das lesões achadas por acaso foram apenas observadas.2
- Dúvida na fase radiolúcida ou suspeita de expansão: peça CBCT de FOV (campo de visão) reduzido.
- Dor, drenagem ou osso exposto: encaminhe ao cirurgião bucomaxilofacial. Na coorte citada, a curetagem ou excisão do osso infectado foi usada no tratamento. A indicação depende da extensão, dos sintomas e da avaliação especializada; a comparação retrospectiva não estabelece superioridade universal.2
- Extração ou cirurgia na área: evite quando houver alternativa. Se for inevitável, informe o paciente sobre o risco de infecção e planeje com o cirurgião.5
Acompanhamento
A evolução natural é lenta. Em 83 lesões acompanhadas por CBCT por 28,3 meses em média, 18,1% aumentaram de diâmetro e 14,5% mudaram de aspecto. O tempo mediano até o aumento foi de 120 meses na forma periapical e de 66 meses na florida.7 Na maioria dos casos, periapical ou panorâmica periódicas bastam. Registre o diagnóstico no prontuário para que outros profissionais não tratem a lesão como endodôntica.
Referências e fontes 7 fontes
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- Li Y et al. Why was the concordance rate of imaging and clinical diagnosis in cemento-osseous dysplasia low? A retrospective study of 55 cases. BMC Oral Health. 2026;26(1):537.Série retrospectivaDOI: 10.1186/s12903-026-07937-z
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Fonte da figura: Daviet-Noual V et al. BMC Oral Health. 2017;17:161. doi.org/10.1186/s12903-017-0455-5